domingo, 19 de fevereiro de 2012

Um olhar fotojornalístico da Feira de Curaçá

Dificuldades, força de vontade e diploma na mão

Luta de estudantes curaçaenses completa ‘bodas de prata’.

Carro quebrado: apenas uma das adversidades dos estudantes  
Em meados dos anos 70, alguns filhos da terra partiram rumo a São Paulo em busca de uma formação superior. Fazer uma faculdade era um sonho comum a todos. Muitos viajaram para estudar em outros municípios, alguns em grandes capitais do país. Já no início dos anos 80 grupos de alunos começavam a se articular no intuito de facilitar, principalmente, o custeio do transporte escolar para as cidades mais próximas como Belém do São Francisco e Petrolina, em Pernambucano; e Juazeiro, na Bahia, onde já existiam universidades. Lá se vão mais de 30 anos marcados de labuta, perigo, alegria, festa e um desejo realizado: canudo na mão, beca no corpo, capelo na cabeça, mais um degrau subido e o orgulho por ter conseguido se graduar. 



O início 

Morar no interior não é fácil. Pior é fazer um curso superior se sua cidade não o oferece. Foi em virtude dessas adversidades que surgiu a primeira organização jurídica formada por estudantes, a Associação dos Universitários de Curaçá (AUC). Durante quase dez anos, a entidade ajudou a formar pessoas, transformando-os em cidadãos através das mais diversas atividades que movimentaram a cidade e a comunidade. Segundo a professora do Colégio Estadual Manoel Novaes, Isabel Pereira Martins, a união era o elemento crucial. “Naquela época era muito bom, mesmo com tantas dificuldades, nos divertíamos e fazíamos acontecer, éramos unidos”, relembra a ex-sócia. 

Paulo César, sócio-fundador da AUC
A ideia de formar a associação foi da bancária Maria das Graças de Carvalho e do tenente da polícia militar João Pedro de Carvalho. Após encontros e discussões sobre o assunto, em maio de 1986, 27 pessoas se reuniram no Colégio Estadual Scipião Torres, entre elas Paulo Cezar Dias Torres, que revela com detalhes do início ao fim da AUC. “Naquele ano foi lavrada a ata de fundação e de eleição para primeira diretoria da agremiação. Começa ali uma história/um desafio que se estende até os dias de hoje”, completa o professor e sócio-fundador.

A maioria dos estudantes se deslocava para Juazeiro e Petrolina e alguns para Belém do São Francisco. Organizar-se numa associação foi decisivo para várias conquistas, dentre elas a aquisição de ônibus junto a políticos. Antes disso, carros abertos com colchões estendidos transportavam a esperança de jovens curaçaenses que nas palavras de Paulo Cezar “comeram o pão que o diabo amassou”, para conseguir se formar. Muitas vezes, foi o motivo de gozação, chegar à faculdade com cabelos assanhados e com roupas sujas e empoeiradas. “Hoje em dia só não faz faculdade quem não quer, está tudo mais fácil e ainda assim muitos, principalmente os jovens, não se interessam”, desabafa Maria das Dores Pires Araújo, contemporânea. 

Fim de uma, nascimento de outra 

Com o término anunciado da Associação dos Universitários de Curaçá, em meados dos anos 90, um período de quase três anos foi preenchido pela falta de organização e compromisso com movimento estudantil por parte de políticos locais que não se preocuparam com a situação. Sem entidade que os representasse oficialmente, os estudantes curaçaenses procuravam qualquer meio para estudar, sem articulação e em grupos isolados. Em virtude disso, muito foram morar em Juazeiro e Petrolina, pois não tinha mais transporte que os levasse e os trouxesse todos os dias, já que o ônibus fora vendido por decisão do grupo. 

Surge então nos idos 1997 a Associação dos Estudantes de Curaçá (ASSEC), outra instituição de representação da categoria, no entanto com novos propósitos: a intenção de incluir em seu quadro social não apenas universitários, mas estudantes em geral; além da realização de atividades sócio-educativas, através de parcerias. Para Dione Félix, contadora e sócio-fundadora, a ASSEC democratizou o acesso e a permanência dos educandos na entidade. “Quando fazíamos um cursinho ou outra coisa que não fosse faculdade, sofríamos preconceito da AUC. Com o seu fim e a necessidade de continuar estudando, resolvemos fundar uma nova associação”, conclui. 

A ASSEC durante alguns anos passou por obstáculos, desde a formação do seu grupo (e com sua quantidade instável) até a locação de transportes (valores oscilatórios). Carros abertos e desconfortáveis voltaram a ser a sina dos estudantes curaçaenses. A ASSEC sempre enfrentou problemas com a manutenção dos transportes: seja pela carência de apoio do Governo Municipal, até porque não existe verba garantida para isso; ou pelos custos altos cobrados pelas empresas de ônibus e vans; e até pela falta de regularidade de um grupo de sócios, uma vez que uns fazem cursinhos rápidos, outros se formam, ou saem porque não conseguem arcar com os custos. “Isso prejudicou, e ainda prejudica muito, especialmente os balanços da administração. Por exemplo, um prefeito vem pagando normalmente uma ajuda e de repente, sem avisar, a corta de vez; um sócio sai sem avisar, após já ter sido incluído no rateio mensal. Tudo isso influi no valor e pega todos de surpresa. Nesses onze anos, em que estou na Associação, já vi duas situações a ponto de colocar o termo extinção da entidade em debate por isso”, relata Maurízio Bim, atual Diretor de Comunicação da entidade. 

Algumas mudanças e a interferência política 
Cronograma de atuação das associações

Da AUC para a ASSEC para a AESC. Como se não bastasse os problemas, ainda criou-se por intervalo de quatro anos uma lacuna na história do movimento e organização estudantil em Curaçá. A primeira associação foi fundada em 1986 e durou até quando a maior dos sócio-fundadores concluiu seus respectivos cursos e até que uma decisão dos remanescentes optara em vender o transporte que em outrora serviu a muitos. Surgia a segunda instituição, enfrentando os mesmos problemas e o maior deles, sem dúvida foi o transporte escolar. Entre entrada e saídas, acertos e desacertos, a ASSEC teve parte de sua história interrompida, por interesses particulares de alguns membros insatisfeitos e por caprichos políticos, o que fez surgir uma terceira associação, a AESC, que não durou mais que 4 anos de uma administração pública. Para a sócia Jaquelline Isabel Pereira Martins, foi um absurdo o que ocorreu. “Eu nunca consegui entender direito o que aconteceu e quais as verdadeiras intenções daquele pessoal. Eu mesmo sofri bastante para me associar e fiquei quase um mês perdendo aula”, desabafa a estudante.


A volta da ASSEC e sua importância social 

Por decisão em assembléia, a partir de março de 2009, a ASSEC passa a ser a entidade máxima de representação estudantil, com abrangência em todo o município de Curaçá. Os trabalhos são retomados, nova diretoria é formada, assim como novos objetivos e metas são traçados. Para Jefférson Luiz Martins “aquele momento foi a hora de dar a volta cima e começar a escrever uma nova história, que continua a ser escrita, uma prova disso é a produção dessa reportagem”. 

Vários relatos de sócios falam da necessidade da organização se voltar mais para a comunidade atreves de eventos sociais e culturais. Ao longo da história já foram feitas: distribuição de presentes para crianças (nos 12 de outubro) e cestas básicas (em finais do ano) por meio da obtenção de produtos pelos associados. Também já foram feitas palestras, acompanhamentos em eventos públicos e outros esportivos, e mais recentemente ambientais. Além disso, a ASSEC discute outras formas de contribuir com o Município: “Todos os sócios que são universitários deveriam produzir algo, nas suas áreas de conhecimento, que tematizassem Curaçá; depois organizar isso num livro, slides, vídeo, qualquer coisa. Isso fica pra vida toda, mais que palestras e eventos sociais. Por isso criamos a Amostra Científica de Curaçá – AMOCC, que além de estimular a produção científica no Município, é um espaço no qual os sócios são evidenciados e apresentam suas produções para a população e ainda deixam cópia na Biblioteca Local. É a melhor contrapartida do investimento feito por essa mesma população e é infinito se for bem cuidado”, atesta Maurízio. 

A ASSEC também vem conseguindo maior visibilidade pela integração com outras organizações governamentais ou não. Eventos públicos como o Dia da Água e do Meio Ambiente são momentos de discussão social nos quais a instituição reafirma sua participação, contribuindo com a discussão, materiais e outros custos, como aconteceu nesse ano. “Tivemos que tomar a frente desses dois episódios, uma vez que outras entidades estavam comprometidas com outras situações. Mas procuramos dar continuidade a essa luta em favor de um Município e Planeta melhor. Sabíamos da importância, então agarramos a liderança, mas sempre contando com o apoio de todos. Assim, nós deixamos de ser somente uma associação de transporte de estudantes e passamos a protagonizar na cena da comunidade, na cidadania plena”, destaca Susanne Almeida, sócia e organizadora do evento. 

Porém, conforme conta membros da Diretoria, existem dificuldades. Uma delas é a de mobilizar sócios para esses casos. “Acaba que poucos têm que cuidar para que as coisas aconteçam, caso contrário, seria um fiasco, a Caminhada da Água, do Meio Ambiente. Parece que as pessoas não querem mais participar das atividades sociais, que são importantes, são complementares na educação de todos”, reclama Eliane Mesquita, Diretora de Eventos. 

Atualmente 

A Associação de Estudantes de Curaçá (ASSEC) está quase virando uma debutante. Prestes a completar 15 anos, a agremiação hoje é referência no Município. Com cadeiras ocupadas por seus membros nos Conselhos do Meio Ambiente e Conselho do Fundeb, além de Colegiado Escolar, a ASSEC está sempre representada em encontros, conferências, congressos e atividades pontuais realizadas no município como datas comemorativas. Um ônibus e uma van fazem o trajeto Curaçá-Juazeiro-Petrolina transportando os mais diversos alunos para os mais variados cursos. “O trabalho da ASSEC hoje é diferenciado em relação à época em que eu estudava e fazia parte da AUC. É muito mais estimulante para quem está estudando, além de possibilitar mais pessoas a buscarem novas oportunidades”, afirma Claudete Gama, membro da antiga associação.

 Gilmar no Ponto de Apoio da ASSEC
Para o sócio Gilmar Vieira de Araújo toda é qualquer entidade, seja de estudante ou não, tem um poder representativo. “É preciso que estudantes percebam isso no decorrer da vida. A gente observa que a ASSEC tem esse poder e dá uma contribuição muito grande para o município”, finaliza. Já a graduando em história, Valéria Ataídes, destaca que a associação tem o importante papel de facilitar o acesso dos estudantes ao ensino, seja eles de faculdades, cursinhos ou qualquer outro tipo de atividade educacional. Esses jovens reafirmam em seus discursos que incluir, facilitar e contribuir são os princípios fundamentais da entidade. 

A ASSEC tem em quadro social mais de 100 sócios ativos que viajam todos os dias, correndo perigo e arriscando suas vidas, em busca de uma formação, não apenas educacional, mas também cultural, social e política, partes que entre formam um bloco essencial na formação do indivíduo e na sua transformação em cidadão. 

Já são 25 anos de luta desde a primeira assembléia que consolidou a criação da Associação dos Universitários de Curaçá (AUC). Centenas de pessoas desde então se associaram e fizeram partes de grupos aparentemente distintos, mas que carregam em si objetivos, desejos e sonhos semelhantes. E essa peleja deverá ser estender por mais alguns anos, até que Curaçá possa, enfim, oferecer cursos de preparação e formação técnica e superior, de maneira viável e qualificada. 


Ata de fundação da primeira associação
O lema da atual Associação de Estudantes de Curaçá (ASSEC) é “parceria em prol da educação”. Talvez pelas dificuldades de outrora e pela resistência aos anos (foi esta a agremiação que mais durou e ofereceu oportunidades, segundo os próprios sócios) ser parceira foi o que mais a ASSEC soube fazer. As dificuldades sempre existiram e se farão presentes em muitas situações, mas depois de tantos anos, aprender a lidar com desafios foi vital e o alento para afrontar toda e qualquer barreira. Morar em Curaçá e estudar fora, nunca foi fácil e jamais será, reunir-se em grupos, buscar apoio, correr riscos, tudo em busca do conhecimento vai ser sempre a função primordial de uma associação de estudantes. Manter-se viva, ativa e atuante, dependerá dos atuais membros e dos que virão. E isso só o tempo dirá. 

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Atrações regionais animam o carnaval de Curaçá


O Bloco das Virgens é uma das atrações do carnaval da cidade de Curaçá. Artistas regionais também fazem parte da programação. Mais informações com o repórter Luciano Lugori.
(Stand-up realizado na disciplina Telejornalismo, ministrada pela professora Fabíola Moura no semestre 2011.2)

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

O futebol amador em Curaçá

Curaçá Futebol Clube: breve histórico do esporte na cidade

                Primeiro Time do Ginásio Municipal de Curaçá em 1964
O futebol em Curaçá existe há muitos anos, no entanto, a precariedade de informações e escassez de registros fez com que a historia do esporte na cidade seja ainda uma página em branco, ou, apenas alguns rabiscos em atas que resistiram ao tempo. O professor Paulo Cezar Dias Torres afirma que o desporto chegou à cidade através do seu pai, Durval dos Santos Torres, conhecido como Durval Gato, que nos idos dos anos 30 participou da fundação times tradicionais de Juazeiro. “Durval foi um dos responsáveis pelo nascimento do futebol aqui na cidade, deu idéias e ajudar a formar clubes. Uma prova disso e de reconhecimento do seu esforço é o que Estádio Municipal leva o seu nome”, conta Paulo Cézar.
Durante anos o futebol ainda engatinhava em terras curaçaenses e somente no final dos anos 50 e início dos anos 60 começa a se firmar como uma realidade com o surgimento de times de maneira mais organizada, com destaque para as equipes do Cruzeiro e do Independente, que além de jogar entre si, disputavam partidas em cidades vizinhas, como Uauá e Santa Maria da Boa Vista. Um dos registros fotográficos mais antigos data de 1964, trata-se de um esquadrão do antigo Ginásio Municipal de Curaçá. “O time do colégio era muito forte, tinha grandes atletas e chegou a jogar vários amistosos contra times de outros municípios”, revela Bendito Franco de Andrade, popular Dito de Joatan.
No ano de 1967 foi realizada uma reunião com atletas e dirigentes a fim de restaurar a então Liga Desportiva Municipal de Curaçá, a LDMC, que logo passou a ser denominada Liga Esportiva Curaçaense (LEC). A preocupação para tal organização era justificada pelo avanço e maior valorização do futebol na cidade. Nos anos 70, houve um aumento do número de times, o que despertou interesse da Liga em organizar as disputas em forma de torneios e campeonatos. Vasco, Flameguinho, Nacional, Santos, Internacional, Bahia, eram os clubes que figuravam no cenário do futebol amador Curaçaense.
Década de 70: anos que marcaram o futebol em Curaçá
Na década de 80 a rivalidade e as disputas estavam cada vez mais acirradas. Clubes iam surgindo, torcidas se organizavam e se amontoavam à beira do campo para torcer e vibrar com as grandes jogadas e belos gols. Os campeonatos eram mais competitivos, as taças e troféus bem mais cobiçados. Cobreloa, Bambuí, Catauense, Botafogo, e tantos outros times, fizeram parte de uma década cheia de emoção. Nos anos 90 começa o declínio do esporte na cidade, por vários fatores, entre eles, o envelhecimento daqueles que iniciaram a história curaçaense, pois muitos partiram e levaram consigo a esperança da continuidade e alegria dos velhos campeonatos.     
Os últimos dez anos serviram para apagar o brilho do futebol amador na cidade. A falta de organização da Liga Desportiva Curaçaense, a atual LDC, a falta de incentivo e de políticas públicas municipais voltadas para o esporte fizeram com que o campeonato deixasse de ser organizado. Em conseqüência disso, clubes tradicionais perderam a vontade de competir, muitos sequer existem mais, lideranças esportivas mergulharam na falta de interesse. Muitos atletas atribuem a culpa ao governo municipal que abandonou o Estádio Municipal e o entregou ao descaso. “Desde o ano de 2007 não houve mais uma preocupação para organizar competições, isto porque o Estádio entrou em numa reforma que até hoje não foi concluída”, lamenta Miranda Alves Nunes, atleta que atuou por diversos clubes.  

Leia a Reportagem Completa.



terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Reportagem: O futebol no Vale do São Francisco

Curaçá, Cultura e Mídia

Curaçá, cultura e mídia


A cidade de Curaçá, localizada no interior do estado da Bahia, é conhecida, dentre outros fatores, por suas manifestações culturais e eventos que ocorrem durante o ano, mobilizando assim um público direcionado. Durante todo o ano acontecem, na sede e no Interior, diversos eventos que são e fazem parte da história de um povo habitante de uma cidade onde tamanho não é documento. Falar de Curaçá é falar de Marujos, Reisado, Pastoril, Festa dos Vaqueiros, as famosas Rodas de São Gonçalo, dentre tantos outros atrativos folclóricos.


Longe de qualquer metrópole, a Cidade fica a 100 km de distância de Juazeiro. Para comunicação social funciona apenas uma rádio comunitária (a Curaçá FM), a qual resume o conteúdo e a diversidade de informações transmitidas. Visto que os sinais das rádios e da tevê de Juazeiro alcançam a Curaçá, a Cidade se mantém interligada de alguma forma com a Cidade Pólo da Região. Além disso, jornais da região do São Francisco circulam na Cidade e, muitas vezes, cobrem eventos. Focaremos no texto que se segue a tradição da Marujada, que nada mais é que uma dança de congos – muito conhecida em Juazeiro da Bahia, tipicamente de tradição africana; e a Festa dos Vaqueiros que há mais de 50(cinqüenta) anos atrai milhares de pessoas para a cidade.

A Marujada é um evento que atrai multidões e, principalmente, a presença da mídia. Há uma justificativa para isto. Para tentar destrinchar este emaranhado, deve-se a princípio enxergar a dimensão religiosa que contagia o imaginário curaçaense. A Cidade possui dois padroeiros que residem na mesma Paróquia. O primeiro oficializado pela Diocese de Juazeiro é o Bom Jesus da Boa Morte. O segundo é São Benedito eleito pela população em geral. E isso se comprova pela reverência, adoração e festejo da massa ao santo negro em detrimento dos festejos do Bom Jesus da Boa Morte, que não possui o mesmo destaque. A festa de São Benedito é realizada no dia 31 de dezembro coincidindo com o réveillon. Já a festa do Bom Jesus acontece no início de janeiro com uma procissão muito acanhada.

A reverência ao santo negro é simbolizada por vários rituais como a estiagem da bandeira e, principalmente, pela chegada dos marujos que acontece no mesmo dia, logo ao amanhecer. Um ritual de passagem que manifesta toda a carga política de escolha de um santo protetor como uma força extra que, psicologicamente, oferece esperança ao povo sofrido da localidade. Muita fé, tradição e religiosidade passadas de geração para geração. Dessa forma a cultura de Curaçá tem se estendido ao logo dos anos, conservando o jeito de cidade interiorana. Uma cidade relativamente pequena, porém com um potencial religioso de fazer inveja a muitas cidades grandes.

O congo, congada ou congado, como preferir, é composto basicamente homens, mulheres e crianças. Muitos dançam por se identificar com o arquétipo do sofredor e humilde; e outros por, simplesmente, cambiar promessas e graças com a divindade (que é o santo negro), e em contrapartida dançam para satisfação de suas realizações e obtenções dos seus desejos. Com movimentos repetitivos, passam a imagem de que são felizes enquanto congos. Passado de gerações dentro de um mesmo lar, o ritual tem crescido o número de adeptos e traz na sua bagagem o perfil de Curaçá, visto que é realizado com frequência o culto deles ao santo.

Destarte, esta manifestação, repleta de religiosidade, tradição e cultura consegue impressionar tanto a população, como outras cidades circunvizinhas; assim também desperta o interesse da própria mídia, a qual enxerga ou encara este fenômeno cultural como um atrativo que contempla a vinculação entre espectadores. O que tem movido a mídia são os interesses populares daquele lugar: por mais que a cidade de Curaçá não tenha sua própria rede de mídia, ela existe nesse mundo e acontece enquanto cidade.

Esta manifestação consegue agregar uma massa ou uma coletividade que gera uma força motriz capaz de mobilizar um contingente de devotos e admiradores. Trocando em miúdos, pode-se dizer que em resultado ao que se observa a realização desse ritual, são conseguidos mais participantes e novos espectadores como também, pessoas, que sem nenhum vinculo religioso, se sentem atraídos pelo fenômeno cultural da congada e da força dos ancestrais, perpetuando, até os dias atuais. Esse fenômeno é o que move a continuidade dessa cultura.

A marujada de Curaçá já foi motivo de estudos literários, trabalhos acadêmicos e também de registros audiovisuais como: documentários feitos pela Tevê (Cultura e ESPN) e pequenos vídeos divulgados na internet (youtube e outros sites). Além disso, a rádio local, Curaçá FM, divulga amplamente a festa da marujada cobrindo as manifestações culturais profanas e sagradas dos marujos. As primeiras são acompanhadas e regadas pela comilança e bebidas de Dionísio; E as segundas são movidas pelo dogma que é realizado através do ritual da missa.

Saindo do ‘rito de São Benedito’, o texto segue para a Festa dos Vaqueiros. A região de Curaçá está fincada no semi-árido nordestino e, por isso, não oferece possibilidades de fartura de vegetação verde caracterizando uma ambiência íngreme e de difícil sobrevivência. Existe ali um ar de sertão e caatinga – motivo de orgulho para os nordestinos. Surge então um personagem resistente vestido de couro de gado: o vaqueiro. Figura ímpar no cenário da caatinga, ele transita entre a cidade e seu ambiente singular (roça, sítio, fazendo, rancho).

Este movimento chamou a atenção de pessoas de olhares vanguardistas que no momento estavam no panorama político da cidade. Assim sendo, resolveram materializar uma sociedade civil organizada que mobilizou uma festa que homenageava os vaqueiros unindo novamente as polaridades profano e sagrado.

Iniciando um breve comentário a respeito da Festa dos Vaqueiros, podemos perceber que através desse evento, é recebida na Cidade uma grande quantidade de pessoas que busca assistir de perto esse acontecimento de tamanha importância para aquele lugar. Com o grande movimento de turistas e visitantes, ficou viável para a mídia investir na Festa. A cultura daquele lugar é de um povo pacato, hospitaleiro, bem humorado, bastante religioso. Tudo que é novo e faz bem, é bem aceito e a Festa é motivo de orgulho para os nativos e lhes traz alegria junto com os participantes do evento.

Pela manhã, realiza-se um desfile de vaqueiros vestidos a caráter. Logo em seguida há uma missa campal. Pela noite acontece a festa dançante que com o passar do tempo foi tomando uma proporção avassaladora por conseguir agregar pessoas, políticos, religiosos e turistas. Nos dias atuais ela vem se refinando em termos de estrutura e atrações musicais. Este festejo já configura no calendário de festejos da Cidade e já faz parte da cultura, já que foi inserida na realidade dos munícipes e turistas. Acontece sempre na primeira semana do mês de julho e atrai muitos membros para a sociedade. Esse momento constitui um marco que incentiva a presença da mídia em geral.

Esta manifestação cultural ascende o nome de Curaçá e muito contribui para o engrandecimento e divulgação do município mundo afora. A importância que foi adquirida ao longo dos tempos (em seus mais de 50 anos) fez com que a mídia reconhecesse e valorizasse a imagem do vaqueiro. Este por sua vez, é um dos responsáveis pela a origem e a formação social e cultural da cidade de Curaçá. 

Podemos ver que em Curaçá é muito constante a presença da religiosidade, pois onde há falta de conhecimento, há medo e o ser humano teme o que não conhece. Desconhecendo o mundo do lado de fora se apega a Deus. Um lugar relativamente afastado tem sua cultura muito voltada para o religioso. Em todas as manifestações, os eventos e ritos, a cidade deixa muito claro que possui uma característica de religioso ativo e praticante, saindo daquele papel de ser católico somente porque o país é católico. Há sinceridade que junto com costumes e tradições é passada para as gerações futuras.

A cultura curaçaense sob o olhar de Pinzoh

Entrevista  com JOSEMAR MARTINS (PINZOH)
Por Luciano Lugori e Raianne Guimarães
O Josemar que virou Pinzoh
Josemar da Silva Martins, mas conhecido como Pinzoh, filho de Curaçá-Bahia, professor da UNEB, poeta, músico e idealizador do INOVE, fala da sua geração e dos movimentos culturais, analisa a cultura curaçaense e sua transformação em espetacularização, suas frustrações e transversalidades primordiais, seus planos e ainda alfineta a perversão e alienação da juventude

L. Lugori / R. Guimarães - Como você enxerga a cultura de Curaçá? Ela e seus ícones continuam com a mesma originalidade? 
Pinzoh - A cultura de Curaçá é um negócio bem amplo. Existem ali alguns ícones culturais ligados às tradições como, por exemplo, os vaqueiros cujo ícone é mantido através da Festa dos Vaqueiros, os marujos e a marujada, as festas de São Benedito e São Gonçalo. Essas tradições tem autonomia em relação ao status, existe um ritual próprio, existe até um calendário de acontecimentos de reiteração da cultura que é próprio. No meu modo de ver essas tradições diminuíram a regularidade e passaram a acontecer de modo festivo. Uma roda de São Gonçalo e um Reisado, por exemplos, que eram dentro de um ritual religioso, agora acontece dentro de um ritual mais festivo, mais espetacularizado, próximo da coisa do turismo, uma coisa mais de multidão e, inclusive, diante disso passaram a ser geridas pelo poder público, causando a perda de sua autonomia. Fora do âmbito das tradições culturais tem a cultura mais ligada à arte e a estética, são os símbolos artísticos estéticos (as artes, a música, a dança, a poesia etc). Nesse sentido, acredito que todo mundo quando fala que é de Curaçá, existe geralmente uma reação que Curaçá é uma cidade cultural, isso pelo fato de ter um teatro centenário, pelo fato de que ali sempre houve, em vários momentos da história, um poeta, uma pessoa que lhe dava com música, que tocava. Tem pessoas significativas que tem uma origem em Curaçá. Quando falamos que Curaçá é uma cidade cultural nos referimos um pouco a essa história da arte em Curaçá, do Teatro Raul Coelho, de Meu Mano e do pessoal de Barro Vermelho. Este lugar tem uma veia cultural artística como Fred Dantas e Adelmário Coelho. Dizem até que João Gilberto nasceu em Barro Vermelho, à família de dele tem origem lá.  Já houve um momento em Curaçá que tinha lugares que você ia e ouvia músicas interessantes, tocava violão, conversava. Hoje, em todos os lugares você houve a mesma música, então, parece que houve uma homogeneização do que tem de pior, o que é um paradoxo já que a gente está numa sociedade em que todos discutem a questão da diversidade, a sociedade da diversidade e, no entanto, você chega a Curaçá e é uma redundância constante das mesmas coisas, dos mesmos gestos, dos mesmos gostos, enfim, do mesmo sotaque estético. Inclusive as tradições populares também vão se aproximando um pouco dessa espetacularização que acontece pela indústria cultural. A Festa dos Vaqueiros é um exemplo claro disso, houve uma perda significativa das características típicas da festa, quer dizer, os vaqueiros hoje são a desculpa oficial da festa, eles são alegoria que funciona como a disputa oficial da festa, mas a festa não é mais dos vaqueiros e nem para vaqueiros, é festa para turista. A Festa de São Benedito continua tendo um simbolismo muito forte, mais a cada dia que passa há uma tendência também de se espetacularizar e perder esse simbolismo. Pessoas falam da perda simbólica que está havendo na Marujada, porque muita gente vai para Marujada pra fazer farra, vai por ir, vai porque se joga lá e enche a cara. Presenciei uma cena em que o líder da Marujada estava dando uma bronca num grupo de jovens que estavam tocando pagode lá, ele falou, “aqui não é pra tocar pagode e sim as músicas da Marujada”. A tendência é a perda de qualidade simbólica em benefício de uma espetacularização mais ligada ao consumo geral, é virar objeto de consumo, moeda de troca. A minha sensação em relação aos movimentos culturais de Curaçá é que eles se fragilizaram em relação a tudo isso.

Você poderia relatar de que modo sua geração, na efervescência dos anos 80, contribuiu para valorização e divulgação da cultura curaçaense?  
Pinzoh – Eu acredito que aquilo que a gente fez não contribuiu muito para a cultura mais tradicional da cidade. O que a gente fez foi questionar o que estava sendo colocado lá, pois incomodava-nos aquela coisa da banalidade das músicas e da estética cotidiana. A gente viveu muito o teatro, a poesia, o rock, a gente ouvia muita Música Popular Brasileira, como Pena Branca e Xavantinho, Fagner, Caetano, Belchior, Ednardo e tanta gente. Hoje em dia, se você colocar o próprio termo Música Popular Brasileira, as pessoas vão lhe perguntar-se sobre o que isso é afinal? O Rebollation e a Lapada na Rachada são ou não Música Popular Brasileira?  Quero dizer com isso, que de lá para cá, houve uma perda também do significado da própria noção de Música Popular Brasileira. De certo modo, o que a gente fez em Curaçá foi questionar o rebaixamento estético, o qual havia em todo lugar. Então assim, o fato da gente ter vivido o teatro, ter vivido com certo nível de irreverência, não um teatro convencional, papai e mamãe, não era esse tipo de teatro, era um teatro com certo nível de ousadia. A gente lia Augusto Boal com O Teatro do Oprimido e Bertolt Brecht com um tipo de proposição mais política. Uma coisa que a gente, por exemplo, se relacionava bem era com o chamado analfabetismo político, o Analfabeto Político de Bertolt Brecht. A gente estava ali pegando a referência que era típica daquele momento de abertura, finalzinho da Ditadura Militar, aproveitando um ressurgimento da cultura nacional, da música do nacional, do rock nacional, de um questionamento generalizado que estava vindo naquele período. Eu acredito que a gente desfrutou daquilo e levou para Curaçá o que nacionalmente estava pulsando, não era coisa dedicada ao abestalhamento, e sim a colocar um questionamento crítico ali em relação à própria cultura.

Sabemos que foram tantos os eventos, encontros e movimentos, e mesmo com dificuldades, com enfrentamento político e a represália militar, eles aconteciam. De quem partiu a idéia do Movimento Curaçarte, o qual foi, digamos assim, ‘revivido’ recentemente no Revival? Qual foi o verdadeiro sentido do movimento?
Pinzoh - Na verdade não partiu deliberadamente de uma pessoa. O que aconteceu foi o seguinte: havia pessoas que estavam voltando de fora para Curaçá, tem haver com o fato de ter pessoas que tinham uma conexão para além de Curaçá. Então você tinha: Roberval que morara em Recife e tinha uma relação, portanto, com o mundo urbano e com coisas de outra atmosfera cultural. Dodó tinha morado em São Paulo, tinha participado de algumas práticas que a gente até pode classificar como práticas do Movimento Hip. Ele trouxe uma referência de música, de poesia. Pinduka e Nilson, irmãos de Dodô, estavam voltando de São Paulo também. Tinha um pessoal que trabalhava na Casa Paroquial, ligada à igreja, mas que era um pessoal do Sul, do Paraná, mas com uma referência importante de poesia, música, literatura, cinema e teatro. Então o que aconteceu foi uma convergência de referências que estavam chegando naquela época e que acabou se juntando com quem estava lá, com quem estava meio de bobeira, estava aéreo, foi isso que aconteceu. Por exemplo, a 1ª Semana Cultural, que aconteceu no inicio dos anos oitenta, se não me engano foi oitenta e dois, foi a que eu participei, fiquei em terceiro lugar com a poesia A Mão, eu nem sabia o que era aquilo, ali tinha um pessoal que chegavam entusiasmados com as coisas que viram aí pelo mundo e disseram assim: - Vamos fazer alguma coisa aqui! E então fizeram essa Semana Cultural. O Movimento Curaçarte surgiu dessas semanas culturais, se eu não me engano foram umas 5 ou 6. No primeiro ano fui apenas participante, do segundo em diante, eu já tinha integrado o grupo que estava organizando. Enfim, a gente foi se misturando, vários adolescentes de bobeira na cidade a fim de fazer coisas e acredito que isso foi nos agregando e aí virou um movimento nosso. De inicio não era um movimento meu, pois eu estava chegando da roça, do São Bento e fui me envolvendo com Roberval, Libânia, Lurdinha, Ivan, Dodó, Pinduka, aí foi entrando eu, Iran, Cacá de Bela, Nazaré, Zuleide, mais tarde Leila e outras pessoas da cidade começaram a participar. A Curaçarte para mim foi resultado dessa confluência de coisas que estavam acontecendo. 

Você foi um dos responsáveis pela criação da ONG INOVE no município. O INOVE já fez muitos projetos, inclusive, um deles foi contemplado justamente na área da cultura, o que resultou no curta (nem tão curto) 'O Estado da Arte da Fuleragem', que teve algumas cenas gravadas em Curaçá, isso foi fruto de uma preocupação com os rumos que estão tomando as coisas em Curaçá?
Pinzoh - Eu tenho certa frustração com o INOVE, porque ele de fato foi proposto para catalisar energias da cidade e fazer com que essas energias humanas pudessem ir atrás de apoio, recursos e criar oportunidades lá. Isso foi de certo modo frustrado e eu mesmo tenho um nível de frustração em relação ao INOVE. Mas a proposta do INOVE, era de fato problematizar a forma como a gente vem fazendo cultura, que é cada vez pior. Existem duas coisas: o mercado da cultura que é cada vez pior, com pouca dedicação das pessoas e existe também o mercado que contempla a arte sofisticada, voltada para elites – para quem pode pagar bem, ir aos teatros ver peças clássicas como Hamlet de Shakespeare. Obras caras que não são acessíveis ao povo. Ao povo, hoje em dia, existe um conto que reflete bem a oferta ao povo: ‘O mito das sereias’, que é a obra Odisséia de Homero, quando Ulisses está voltando para Grécia e encontra à feiticeira Circe, esta o aconselha para que se ele quisesse escapar, ele teria que se amarrar e tapar os ouvidos dos remadores para não ouvirem o canto das sereias, que são belíssimos, mas são tão belos que qualquer vivente que ouve se atira e se deixa consumir pela beleza dos cantos. Então, O pessoal da história de Frankfurt acha que esse é o momento que a arte se dividiu em arte de elite refinada, tão refinada que o consumidor dessa tem que ser educado, amarrado, aprisionado aos rituais para poder não se entregar a essa beleza, e ao povo geralmente o que se dá é cera nos ouvidos, como a música de hoje. Eu tenho a impressão que a música atual acaba danificando o aparelho auditivo e a capacidade de ouvir, de lhe dar com a sutileza. Então, o INOVE tinha não só o interesse em questionar essas coisas, mas também oferecer por outro lado oportunidades, mas, por enquanto, precisa-se inovar. O que aconteceu foi o seguinte: devido a minha falta de tempo não pude dedicar-me a ele e também fiquei um tanto cansado com as pessoas que faziam parte dele e o abandonei. Mas enfim, a história do INOVE não está terminada. O meu interesse com INOVE ou sem INOVE é continuar questionando em Curaçá o modo que a gente anda produzindo e dispondo a cultura para a população.

O INOVE tem pressupostos fincados na gestão ecologicamente sustentável dos recursos naturais e na manutenção da diversidade cultural e biológica para as presentes e futuras gerações. O município tem sofrido com alterações socioeconômicas e histórico-culturais, ainda mais agora com a construção de barragens. Você acredita que toda essa construção histórica pode ir por água abaixo?
Pinzoh – É, por água abaixo literalmente [risos], literalmente por água abaixo, porque se construir as barragens pelo o que eu sei, a ilha, por exemplo, desaparece, não sei se vai por água  abaixo, mas pelo menos vai ficar embaixo da água. O lance das barragens é um tema complicado porque, por um lado ele mexe com a vida de muita gente, tem uma coisa dolorosa que é tirar as pessoas dos lugares e levar pra outros. Você tem um problema sério que produz certo desequilíbrio. Agora, se for vê por outro lado, esse desequilíbrio pode ser também produtor de outras ecologias de sentido, depende do modo que for feito. Eu não sou muito otimista em relação a isso, porque até a coisa se equilibrar, haja desequilíbrio. O aquecimento global vai receber uma contribuição formidável porque a geração de energia elétrica é uma das fontes de aquecimento global e a gente vai dar a nossa cota de contribuição para o desequilíbrio global. O grande paradoxo disso é que tudo é feito em nome do desenvolvimento, do crescimento econômico e da geração de renda, o modelo de crescimento mundial está sustentado nisso. O desenvolvimento é paradoxo, fica o tempo todo produzindo riquezas e nos levando para o abismo. Isso também vai chegar a Curaçá e acredito que boa parte da população até deseja isso. A prefeitura, talvez, até deseje os royalties que é um dinheiro que não se presta conta e os políticos sentem-se contemplados com isso. É um problema sério, mas não está tudo perdido. A interferência na cultura eu não consigo avaliar do ponto de vista da cultura, o que tem de bom e ruim, primeiro porque essa interferência já existe da forma mais escrota [sic] possível. Quando você fala de patrimônio cultural, uma boa parte simbólica vai ser afogada. Se considerarmos que o cemitério é patrimônio histórico, que é onde está à ancestralidade da nossa gente, boa parte da história, é preciso considerar que esse patrimônio vai ser afogado. Existem essas perdas que são irreparáveis e incalculáveis. Estou me referindo há um tipo de conteúdos simbólico, mas existem outros conteúdos símbolos que tendem ir por água abaixo, ou então ficarem embaixo d’água com essa história das barragens. Agora com relação à interferência na cultura ordinária da cidade e com o tipo de distribuição cultural que tem na cidade, eu não sei se piora mais do que já está, pois já está muito ruim. Pode ser que, inclusive, apareçam outras pessoas com capacidade e outras mentes para produzir outros significados, nesse sentido, acredito que pode ser algo até bom.

Você escreveu no perfil de seu Blog que se chama Josemar Martins, mas que há muito tempo virou Pinzoh, que virou Professor, mas é a poesia, a arte e a cultura a sua transversalidade primordial. Como você explica isso?  Nessa transversalidade, você inclui temas como Curaçarte, O Último Pôr do Sol, Aqbxiba, Revival, o que isso represen (ta/tou) para você e para Curaçá?
Pinzoh - Quem paga minhas contas é o salário que eu recebo todo mês por ser professor da UBEB, minha relação com a educação, como educador e professor. Como professor também estou tendo inclusive, uma relação com a comunicação, porque  virei professor do curso de Comunicação, mas entre a comunicação e a educação eu tenho outro tripé, que é a cultura e não ganho nada trabalhando com ela e até hoje não foi uma fonte de renda para mim, mas por exemplo, é onde eu faço minhas terapias, invisto meu sentimento, minha afetividade. Tenho uma relação muito intensa com Curaçá porque aprendi, não só o fato de ter vivido o teatro, a poesia, a música e tal quando participava da Curaçarte, em Curaçá, mas também porque participei da organização do Pôr do Sol e até hoje continuo participando da organização do Chá do Último Pôr do Sol do ano em Curaçá, que já virou tradição e agora me envolvi com o Revival, envolvimento leve. Enquanto ao Aqbxiba, foi um teste e peitar a capacidade de fazer cultura, foi muito bacana ter feito mesmo com muito sacrifício tendo que colocar dinheiro do bolso para custear certas despesas. O primeiro Aqbxiba foi muito interessante o fato de Serginho ter feito a peça Será o Benedito?!, que foi muito aclamada na cidade. Aquele teatro bombando, gente por tudo que é lado, uma imagem maravilhosa. O fato de ter contribuído com isso, me sinto gratificado, mesmo com problemas para ser construído e não está descartada a possibilidade de fazer outro, porque para mim, é importante continuar oferecendo, e eu tenho certeza que muitas pessoas inseridas nisso, de algum modo se transforma, reorganiza sua subjetividade. Então, a cultura é uma trincheira minha.

Com relação à juventude, como você percebe o envolvimento desta na construção do município como um todo? Existe interesse ou estamos vivendo uma geração perdida?
Pinzoh – Eu acredito que a juventude é cada vez mais uma incógnita. A juventude sempre foi essa coisa mal compreendida e mal localizada por uma série de razões, até mesmo porque, os jovens vivem uma fase que eles não foram devidamente assimilados pela cultura e a sociabilidade adulta e, deste modo, eles enxergam essa sociabilidade com certo nível de controle, então eles reagem a isso. A princípio, o jovem sempre foi um contestador, sempre foi um irreverente e grande parte da inovação do mundo se deve a cabeça dos jovens que se colocaram contra padrões estabelecidos. Em Curaçá vai continuar existindo, aqui e ali, um jovem que se coloca contra isso e tal. Só que o tipo de rebeldia do jovem de hoje não é nem uma rebeldia, acho que não existe uma transgressão, pois já está tudo escrachado, tudo arreganhado. Os pais perderam o poder de mediação em relação ao jovem. Você chega a Curaçá hoje e o que você mais ouve são os pais reclamando que não tem mais o que fazer com os jovens, pois houve uma liberação muito grande e eles perderam o controle. Então digo, não é mais uma transgressão, é uma perversão. Transgressão é quando você faz questionamentos, eu não vejo isso lá. Eles aproveitam a perversividade que está colocada e essa liberação para escrachar. Vejo, por exemplo, na sociedade que todos dizem que é da informação, do consumismo, porém os meninos com um nível de informação baixíssimo. Todo mundo está na internet, na lan house, no Orkut, no MSN, todo mundo está na rede, nos rizomas cibernéticos, mas até nisso eles estão muito alienados. Dominam mal a língua portuguesa, os conhecimentos básicos sobre o país, do estado, sobre o município de Curaçá, dominam mal informações sobre si próprio. Uma coisa que me assusta são os jovens que vivem à custa dos pais e muitas meninas parindo e dando os filhos para os pais, existe hoje uma geração de filhos de avós e até filhos de bisavós. Então, vendo tudo isso eu não posso achar que esse quadro é bacana e de consciência, eu só posso achar que é um quadro de alienação profunda. O que muitos enxergam como transgressão, irreverência e revolução, eu digo que é alienação e perversão. E vejo muita falta de preocupação com o futuro, muito hedonismo, muito narcisismo, muita gente que não está preocupada com o meio ambiente, com política e com ética. A preocupação é se jogar, curtir, encher a cara e fazer sexo. Enfim, isso me entristece brother [sic], não tem condições de você diante de um negócio desses, ver jovens sem estudar e escolas fechando por falta de aluno. Então, não estudaram, não se prepararam, não arrumaram o que fazer, estão largados no mundo, isso é uma lástima porra [sic]. Isso é outra forma de iniqüidade fantástica que a gente precisa começar a discutir e a problematizar. Eu fico muito triste, pois em Curaçá, a juventude é essa impressão. É claro que tem as exceções, tem gente preocupada, tem gente fazendo poesia, ouvindo boa música, produzindo bons conteúdos, fazendo boas conversas, tem gente que não está, simplesmente, largada na buraqueira da alienação completa, eu vejo tem algumas pessoas interessantes que são as minhas esperanças para que as coisas tomem outros rumos.

Autor de várias poesias, do livro (com Pinduka nos anos 80) e músicas (com Fernando Barbalha), como o sucesso ‘Azul’ que é muito conhecida, o Josemar que virou Pinzoh, pretende escrever algum livro que trate da cultura curaçaense? Quando você ficar ‘Bem Velho’, o que pretende fazer?
Pinzoh[Risos] Quando eu ficar bem velho quero arrumar um lugar para ficar tranqüilo, que pode ser em Curaçá e pode ser em qualquer outro lugar, contando que haja terra e água e gente bacana para conviver comigo e está tudo certo. Este ano vou publicar um livro. Na verdade, a idéia era publicar mais de um, pois já tenho muita coisa escrita, acumulada e guardada. Tem uma publicação específica que é dirigida à educação e que dialoga também com a comunicação e com a cultura, porque a minha trincheira é esse tripé. Então, se eu for falar de educação, não posso deixar de falar de comunicação e cultura. E tem uma outra coisa que é dedicada à tematização mais cultural que venho fazendo ultimamente. Por exemplo, o que venho questionando é uma junção de coisas que surgiram com o vídeo o ‘Estado da Arte da Fuleragem’ e que tem surgido agora nas minhas andanças pelas diversas cidades da Bahia. É uma preocupação com três formas de iniqüidade: o lixo, o ficus e a fuleragem, é uma tematização da cultura dentro dessa tríade de iniqüidade que eu as chamo de iniqüidades contemporâneas que é o lixo, o engessamento da paisagem urbana com o ficus benjamina e a fuleragem, a música fuleira que todo mundo sabe o que é. Existe essa preocupação de publicar essas coisas, mas tem ‘uma coisinha’ com poesias.  Não existe nada específico de Curaçá. Futuramente sim, inclusive, eu quero escrever as minhas memórias de Curaçá. Eu quero fazer literatura diferente dos demais. Eu não quero ser o herói. Nem fui herói, não sou e nem quero me fazer passar por um herói. Eu não pretendo criar para mim um super-personagem. Na verdade, o que eu quero é dar visibilidade aos diversos personagens. Enfim se eu fosse fazer um livro, a literatura sobre Curaçá, eu tenho uma riqueza de personagens que entrariam nesse livro, cada um com uma feição específica, uma contribuição específica para história da cultura de Curaçá. Eu não quero ser um Mister Pinzoh, Mister Pinza nem Super Pinza. Eu não quero nada disso. Eu quero apenas escrever coisas que tem a ver com a minha vida, por tanto tem a ver com o que eu vivi, o que senti, o que eu vi, de onde eu vim, e gostaria muito de ter a capacidade de dar sentido aos diversos personagens dos quais eu me relacionei e me relaciono até hoje ali [em Curaçá].